sábado, 2 de maio de 2009

Minha terra tem palmeiras onde nossas bundas são apalpadas.

Uma das maiores reclamações que brasileiros fazem acerca da Europa e dos Estados Unidos é a frieza das relações interpessoais: ninguém se cumprimenta na rua, as pessoas mal se olham e ai de você se pisar no pé de alguém. Nós, como o povo tropical que somos, parecemos exigir calor humano, entusiasmo, cumprimentos e gentileza. Temos que nos sentir incluídos, bem-vindos e incorporados.

Sim, somos um povo "cordial". Sim, temos calor humano. Mas às custas de quê? Em que ponto nossa afabilidade deixa de ser sinônimo de gentileza e vira pura e simples invasão?

Parece que, pouco a pouco, abrimos mão de nossa privacidade, de nossa tranqüilidade e de uma coisinha básica e essencial que eu gosto de chamar de ESPAÇO PESSOAL.

O conceito de espaço pessoal é virtualmente inexistente no Brasil. Especialmente no Rio de Janeiro. Você anda em Botafogo ou no Centro da cidade, por exemplo, e é constantemente abalroado por centenas de transeuntes distraídos ou simplesmente inconvenientes, que passam batendo o braço em você, pisando no seu cadarço e furando seus olhos com guarda-chuvas mortais enviados do inferno. Alguns, obviamente mais descoordenados, ficam envergonhados e pedem desculpas. Porém, em sua maioria, as pessoas estão simplesmente cagando para a sua presença naquele espaço. Em casos de multidão extrema, como é aquela violação dos direitos humanos que chamam de Reveillón em Copacabana, até SUA bunda, parte integrante do SEU corpo, acaba virando propriedade pública - livre para observação e até mesmo incursões tácteis. Nenhuma mulher brasileira chama um policial por ter sido descaradamente apalpada no meio da rua. Ou tampouco se sente no direito de olhar feio para aquele babaca num chevette que faz questão de abrir a janela no sinal e, ao som dos últimos sucessos de MC Catra, revelar seu apreço por suas formas femininas.

Sinto que nós, em nome de nossa"cordialidade tropical", nos conformamos com esse tipo de abuso. Agimos como se isso fosse, se não aceitável, no mínimo compreensível: afinal, o povo brasileiro é assim. Somos naturalmente vulgares e chulos. Nossos antepassados eram assim, morreremos assim. Faz parte da nossa composição genética, não?

NÃO. O povo brasileiro não É assim. Não é "natural" derespeitar assim os limites dos outros. E não é porque os malditos índios andavam pelados que a gente pode justificar esse tipo de atitude. A sociedade mudou, nós mudamos, e assim como eu vou ao médico - e não a um pajé - e vivo em um apartamento -e não em uma maldita oca - também imponho limites sobre o meu corpo. Nós começamos a cobrir nossas bundas por um motivo. LIDEM COM ISSO.

E não é só em relação à questão sexual, também. Eu sinto o meu espaço pessoal, a minha bolhinha impenetrável sobre a qual eu reino absoluta, violada com as mínimas atitudes, o tempo todo. Por que pessoas completamente aleatórias gostam de se meter na vida dos outros? Por exemplo, não tem nada que eu odeie mais do que uma pessoa me falando pra amarrar o cadarço. Eu já odeio quando meu namorado faz isso, quanto mais quando um absoluto desconhecido me para no meio da rua e me faz tirar o meu fone de ouvido para me falar que meu cadarço desamarrado. Tá, vocês podem pensar: "mas essa pessoa só quer impedir que você caia e arrebente todos os seus dentes em plena Voluntários da Pátria". E talvez, bem talvez mesmo, essa pessoa esteja tentando exprimir gentileza. Mas talvez seja só uma necessidade doentia que alguns parecem ter de opiniar no que você faz ou deixa de fazer, de ter uma minima participação na vida daquele total desconhecido que, com licença, não te afetaria em nada se levasse um estabaco por causa do maldito cadarço.

Eu ODEIO quem me manda amarrar o cadarço. Está no MEU tênis, que eu comprei com o MEU dinheiro (na verdade, o dos MEUS pais), para cobrir o MEU pé. O cadarço é MEU, não SEU. E, se eu quisesse sua opinião, eu pediria. Mas eu não quero. Porque ela é idiota. E você também. Just saying.

O transporte público é toda uma outra história. Reparem que os indivíduos preferem simplesmente ignorar que um ônibus é um ÔNIBUS, e não um carro particular muito muito espaçoso. As pessoas se roçam, praticamente sentam no seu colo e parecem sentir um prazer mórbido em se entulhar bem do seu ladinho quando você precisa descer. Mas não é essa a pior parte. O pior é que, desde esta porcaria de inclusão digital dos infernos, todo - e eu friso, TODO- mundo tem celular que toca música. Pode ser mp3, pode ser rádio, mas VAI sair algum som (escabroso, de preferência) dali de dentro. E a pessoa não vai botar um fone. A pessoa tem alergia a fones. Eu não sei se é complexo de DJ, se é algum tipo de vontade de expressar algo que vem de dentro, mas há semanas eu não entro num ônibus sem algum fundo musical gentilmente fornecido por algum IMBECIL munido de um celular.

E como eu lido com aquela pessoa de celular cor-de-rosa (com a calça e a blusa combinando, diga-se de passagem) , que parece doidinha para compartilhar com os outros seu amor por "Because of You", da Kelly Clarkson? Simples. Eu não lido. Eu fico calada. Enquanto a pessoa está lá, com a cara mais normal do mundo, achando muito natural que seu celular COR-DE-ROSA esteja gritando no ouvido de um monte de gente que não tem nada a ver com a vontade dela de ouvir aquela música, eu fico fingindo que está tudo bem, que nada está acontecendo.

MAS ALGO ESTÁ ACONTECENDO. É a violação no estado máximo! Aquela pessoa basicamente disse FODA-SE para o que você deseja e está te submetendo à vontade dela. E por quê? Porque ela está a fim. Porque ela quer ouvir a música dela em alto e bom som, incomode a quem incomodar. Porque ela pagou R$ 2,20 para estar naquele ambiente, ela se julga no direito de agir a seu belprazer. E ninguém faz nada. Ninguém reclama, ninguém dá um pio. E, além de mim, parece que ninguém em volta sequer se incomoda. Ninguém mais se sente violado, desrespeitado ou sequer perturbado com a viagem ao som dos gemidos de Joelma. E eu, resignada, não posso nem ceder à minha vontade de chegar para essa pessoa e esmigalhar aquele aparelhinho de tortura auditiva e fazê-lo mastigar pedacinho por pedacinho.

Sim, são coisas pequenas, banais. Sei que não estou falando de hecatombes, infanticídio, pandemias ou Mallu Magalhães. E, de fato, esses pequenos incômodos em nada se comparam a essas violações de escalas titânicas. Mas são atitudes invasivas, de qualquer modo. E eu fico puta da vida, de qualquer modo. E desejo que essas pessoas sofram, de qualquer modo.

ESPAÇO PESSOAL, gente. ESPAÇO PESSOAL.

E vou fazer uma legislação muito específica em relação a isso quando me tornar Rainha.

10 comentários:

Danilo Y. disse...

em relação ao cadarço é loucura sua... mas quando acontece isso do som alto no ônibus, ah, eu sempre me vejo naqueles filmes em que o protagonista pega o celular do filho da puta e joga pela janela, partindo o aparelho em 3 antes de ser atropelado por uma van. só que de repente a cena volta no tempo como se o momento de raiva nunca tivesse existido e eu peço pra pessoa abaixar o som educadamente.

Pedro Eler disse...

auhauhauhhuauhuha

gostei da sinceridade do Danilo Y., seja lá quem for, ao dizer que o cadarço é loucura sua fernanda, porque, sinceramente, é mesmo! auhauhauhhuauhauhahau

Sobre o onibus nem comento nada, concordo com tudo o que vc disse e também acho o fim do mundo.

E nós brasileiros nos achamos muito educados mas provavelmente somos o povo menos educado do mundo. Sério, nos EUA as pessoas fazem filas na escada rolande, do lado direito, liberando o esquerdo pra passagem dos que querem andar mais rápido. Ninguém se empurra no metro. Ninguém esbarra em voce na rua! É maravilhoso...

Mas o Brasil tem seu charme, se você gosta de contato humano desconfortável com estranhos em transportes públicos...

Fernanda Prates disse...

Vocês não entendem porque seus cadarços obedecem a vocês.

Cesar disse...

Bem, Fernanda, acho que eu vou te presentear com um papa cardaço. Lembra deles? Aqueles pregadores que seguram os cadarços e tem carinhas bonitinhas de bichinhos monstruosos? Tinha vááários quando eu era criança.

Já o resto, bem, realmente, pra gostar de viver na calorosa sociedade brazuca tem que curtir o melhor que o terceiro mundo tem a oferecer. Ou seja, merda. E, assim como você, devo dizer que eu também detesto.

Fernanda Prates disse...

Aaaaaaaah, eu quero um papa cadarço! Eu nunca tive um, vai ver é por isso que meus cadarços estão se rebelando!

pacheco disse...

nunca ouvi falar em papa cadarço...

atlantic disse...

Pô, eu aviso às pessoas sobre o cadarço. Mais porque eu fico com um pensamento imbecil de que aquela pessoa vai correr no meio da rua (já que ninguém atravessa no sinal) e vai ser atropelada por uma van com um cara na janela gritando "Alto, lugar sentado, direeeto!".

Em relação a som alto, eu sinto vontade de fazer umas doideiras. Sabe aqueles manés que colocam um sistema de som melhor que o do Kiss no porta-malas do próprio carro? Pois é, um dia queria pegar um carro desses emprestado. Ia estacionar, abrir o porta-malas e tocar "Yesterday" dos Beatles alto pra cacete. Só de sacanagem.

Quando um mané desses abre o porta-malas você sabe que nunca vai tocar Beatles, Jimi Hendrix ou Bob Dylan...

Fernanda Turino disse...

Como todos eu acho que o papo do cadarço pe exagero, eles só querem mesmo impedir que você quebre a cara ou o neio fio mesmo, independente do motivo, acho que boa intenção há. Acho a ideía ai do papa cadarço seria uma boa. Era ótimo para mim, uma criança retardada que aprendeu a dar laço com uns 12 anos.
Quanto ao som alto no ônibus, eu as vezes me utilizo da tática de fazer meu telefone tocar a minha musiquinha escrota do Mário e fingo que to catando ele na bolsa e fingo atender e não ouvir bem a pessoa para logo depois fazer ele tocar de novo. Assim pelo menos abafo a nova música da Kelly key. ônibus já são locais desagradáveis por natureza, ao som da Kelly Key ou da Clarkson mesmo.

Jessy disse...

kra... le lah oq eu pus sobre o programa AI!! acabei d ver e fiz um resumao!1 uihauihauihauihauihauiha

beijaao

tom disse...

mas sabe de uma coisa, isso tem a ver com a nossa cultura. o europeu nao repara em bunda pq nao é treinado pra isso desde que nasce. nós aqui, somos. e as donas das bundas colaboram para isso, tornando-as cada vez maiores e mais redondas e usando calças apertadas para destaca-las. ja nos eua, toda a atenção vai para os seios pelos mesmos motivos,,,