domingo, 31 de maio de 2009

O futebol é a paixão livre de razão.

Você está no maracanã. À sua volta, quase 72.000 torcedores. Você está na arquibancada mais lotada, já que seus amigos acham que assim, na muvuca, o jogo fica mais "emocionante". O sol está forte. Os vários homens barrigudos à sua volta transpiram excessivamente dentro de suas camisas de tecido sintético. Seu cabelo já adquiriu o cheiro de cebola misturado com leite de rosas que parece inundar o ambiente.

Mas você está ótima. Você está vendo seu time jogar. Você está feliz porque pode presenciar a tão aguardada estréia de Adriano, o Imperador. É esse pensamento que te faz agüentar os 45 minutos de pé, no limbo da arquibancada, num semi-lugar que parece não ter sido feito para comportar um ser humano inteiro. Você quer ver gols. Você aguarda o momento em que Adriano vai acertar a rede e o estádio inteiro vai explodir em cânticos de exaltação. Você quer aquele momento em que estranhos suados e desagradáveis se abraçam e gritam amorosos palavrões. Esse é todo o propósito de se estar ali. Você finalmente entende o tal do "ópio do povo", pois está doidona de expectativa e espírito de grupo. Odeia muito tudo aquilo, mas está inexplicavelmente feliz.

Segundo tempo. Você consegue um bom lugar e está satisfeita. O time se encontra em campo, você sabe que vai sair o gol em questão de minutos. Você vê um lugarzinho vazio em frente e decide chamar seu amigo, que está com a visibilidade muito prejudicada. Você olha para baixo: "Maaaark, Maaark, I think you'll be able to s...". Você ouve gritos. Levanta a cabeça. O estádio inteiro, em êxtase, comemora. Olha para o campo: os jogadores se abraçam e o goleiro do outro time parece bastante incomodado. Você se dá conta do que aconteceu: um gol. Puta merda. "De quem, de quem?". Não precisa de resposta. Os cantos de "Ôôô, imperador voltooou, imperador voltoooou" denunciam. Foi gol do Adriano. Foi o momento que todo, inclusive você, esperavam.

E você não viu.

Você, Fernanda Prates, estava olhando para baixo.

Você enfrentou muvuca, fila, sol, gente suada e homens de regata para PERDER O GOL DO ADRIANO. Você gastou 15 reais - pode não parecer muito, mas te compram um suco de frutas silvestres e uma salada com 16 toppings no Boomerang - para PERDER O GOL DO ADRIANO.

Não dá nem pra descrever o quão escrota é essa sensação. Você se sente um verdadeiro, total, completo, glorioso IMBECIL. É assim que eu me sinto. Uma imbecil. Eu acho que só alguém que realmente passa por uma situação dessas consegue compreender o quão verdadeiramente estúpido um ser humano é capaz de se sentir. É um misto de auto-depreciação, raiva e frustração que não dá nem para colocar em palavras.

"Você. Perdeu. O. gol. Do. Adriano."

No fundo, você sabe que não é o fim do mundo. No fundo, você sabe que é apenas um gol idiota, num jogo idiota. No fundo, você sabe que isso não vai mudar a sua vida, que o mundo não virou um lugar melhor, que a crise econômica mundial continua rolando e os pobres pandinhas continuam em extinção.

Mas isso não te impede de se odiar profundamente. Isso não te impede de querer abrir fogo contra um ônibus escolar. Isso não te impede de querer quebrar dente por dente de cada babaca se abraçando e comemorando à sua volta o gol que você, Vossa IDIOTICE REAL, perdeu. Vontade essa, aliás, que é multiplicada quando o mesmo babaca vira e fala "puta merda, VOCÊ NÃO VIU O GOL DO ADRIANO?". Não, não vi. "Caralho, foi LINDO!".

E, just like that, o resto do meu dia estava arruinado. O Flamengo ganhou. O jogo foi divertido. Eu comi uma salada taco no Rota 66.Mas foda-se. Estou com tanta raiva que mal consigo me agüentar em mim mesma.

Não é engraçado, isso? Uma coisa tão "boba" afetar tão seriamente uma pessoa? E não é isso que é o futebol? Uma coisa tão "boba", "irrelevante" e aparentemente sem propósito, capaz de mover as massas e basicamente paralisar o Brasil. Nada, no país, tem esse mesmo poder de mobilização. Nada parece fazer o sangue do brasileiro ferver tanto. Nenhum assunto parece levantar tanto interesse e gerar tantas opiniões. Nem a política ou a economia, que afetam diretamente a vida de cada um, têm um bilionésimo da influência do futebol. É como se o Brasil gravitasse todo em torno de homens correndo atrás de bolas. E a idéia de time, então? Que nada passa de um conceito imaginário, um sentimento de pertencimento totalmente descabido a um grupo unido, basicamente, em torno de uma camisa. Uma camisa que, ainda por cima, muda! Assim como o time, os técnicos e diversos outros profissionais que migram para onde está o dinheiro, deixando para trás nada além de possivelmente um estádio, cores, um brasão e a torcida. Todo esse monte de gente que torce para algo que mal existe, que vibra e ama e fica absolutamente puta da vida com algo que em nada afeta suas vidas diárias.

Não faz sentido. Futebol não faz sentido. Torcer não faz sentido. Dizer-se "flamenguista", "botafoguense" ou "corintiano" não faz nenhuma gotinha de sentido. Se você pensar bem, é tudo tão irracional que beira o ridículo.

Mas e daí? Não é que as melhores coisas da vida não fazem sentido nenhum, mesmo?!

4 comentários:

pacheco disse...

texto sensacional!! Hilário e trágico....

Cesar disse...

Eu cago bonito pra futebol então eu fico apenas no "achar ridículo" e dispensável". Nem curtir irracionalmente como ópio e escapismo barato eu consigo. Época de Copa então PQP!! Dá vontade de atropelar todos os filhos da puta pintando bola de futebol no asfalto das ruas e pendurando bandeirinhas nos fios de alta tensão. Deveriam todos morrer eletrocutados. Anyway, o futebol e essa cultura brasileira que gira em torno do mesmo me irritam profundamente.

E viva a política romana do pão e circo.

aninha disse...

eu concordo em genero numero e grau hahaha (com vc, nao com o cesar) ateh simpatizo com vc por ter perdido o gol do adriano, mas eu nao perdi (nao me bate) haha

ps: qdo eu leio o seu about me "Eu, Fernanda P." eu sempre imagino "eu, fernanda piiii" como se fosse palavrao e fico horas rindo AHAHAHAHHAHA eu sou mongol.

Maurício Meireles disse...

Post antológico. =)