sexta-feira, 5 de junho de 2009

É preciso saber viver.

"Toda pedra do caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver
"

Refletindo acerca do estado de total estagnação e minhas perspectivas de eterna adolescência , cheguei a uma alarmante conclusão: eu não sei viver. Sinceramente. Eu não retiro as pedras do caminho, eu tropeço. Não só me arranho com todos os malditos espinhos, mas como pego infecções decorrentes do ferimento. E nem me falem de escolher entre "mal" e "bem", quando eu não sei nem escolher o que quero botar na minha torrada de manhã. Não sei agir como uma pessoa normal, e tampouco sei como aceitar com naturalidade os tropeços do cotidiano. De verdade. As pessoas não me levam a sério e acham que estou exagerando. Mas, cada vez mais, acredito que eu deva ter um problema mental muito sério rolando aqui dentro. Sabem, uma dessas disfunções sociais, como agorafobia, síndrome do pânico ou gostar de chorinho e
roda-de-samba.

Eu não sei se nasci assim, errada, ou se fui adquirindo isso ao longo do tempo, mas a verdade é que eu simplesmente surto com as coisas mais banais do cotidiano. E, agora que eu penso a respeito, isso provavelmente explica porque eu não tenho estágio, tremo com o simples pensamento de ter que trabalhar um dia e nunca almocei sozinha na vida. Todos têm suas neuroses, é verdade. Mas parece que todos os "adultos" normais conseguem minimamente controlar seus surtos psicóticos, enquanto eu estou presa a uma vida de fobias, paranóia e pensamentos sociopatas.

O pior é que as coisas que mais me deixam atordoada são, justamente, as mais banais. Tipo, acreditem, telefones. Eu tenho fobia de telefone. Fixo, então, é um verdadeiro horror. Eu não atendo quando toca. Não peço coisas em casa. Às vezes, chego ao absurdo de fingir que sou outra pessoa e digo que não estou. Além, é claro, de desenvolver uma voz de pseudo-criança hidrocefálica semi-autista (não vou falar da Mallu Magalhães, não vou falar da Mallu Magalhães) por puro pânico. NA realidade, a não ser que seja absolutamente imperativo que eu pegue um telefone, eu faço de tudo, desde mandar e-mail, fazer cadastro online, fingir que estou dormindo para não ter que atender ou, até mesmo, trocar meus pijaminhas por calças jeans e ir até a farmácia para evitar a ligação. Juro pra vocês.

Eu não sei o que é, mas assim que eu pego no telefone, eu viro uma completa retardada. Não sei como cumprimento os outros, não sei guiar uma conversa e, principalmente, não sei como me despedir do meu interlocutor. Isso aí, aliás, acredito se tratar de um problema comum a várias pessoas: não conseguir terminar propriamente uma ligação. Fica um tal de "beijo", "me liga mais tarde" e "então tá", e "Po, então, vou lá" que, dependendo das habilidades telefônicas das duas partes envolvidas na conversa, pode demorar para sempre. Se os dois forem socialmente ineptos, desista: a ligação VAI durar uns 15 minutos, você vai terminar com um "Então t..." *Tuuu tuuu tuuu* e VAI sentir que estão todos à sua volta te achando um total e completo babaca - apesar de ninguém, além de você e seu parceiro igualmente desajeitado, estar ciente da idiotice que acabou de ocorrer. Mas o que diferencia um verdadeiro telefonefóbico de um simples terminador-de-conversa deficiente é a reação posterior: o mal-terminador vai desligar e seguir com a sua vida. O telefonefóbico vai se se torturar pelo resto do dia, pensando em todos os ângulos da situação e chegando à conclusão de que, de fato, todos sabem que ele é um imbecil.

Eu, meus amigos, faço parte do deprimente segundo grupo. E você sabe que tem problemas quando um inofensivo aparelhinho com botões e uma simpática luzinha piscante é figura reincidente nos seus pesadelos.

E, por outro lado, ao mesmo tempo que tenho pânico de telefone fixo, não consigo conceber o pensamento de estar na rua sem celular. E não é por uma questão de "caso precisem falar comigo", ou "caso eu ganhe na loteria e queiram me avisar", ou "caso o IAn Somerhalder esteja atrás de mim para me pedir em casamento". OK, talvez seja um pouquinho o caso do IAn Somerhalder, mas enfim... Não é nada disso. Na verdade, não poderia me importar menos com a necessidade que os outros teriam de falar comigo - e, convenhamos, o quão útil eu poderia ser para qualquer pessoa? Mas enfim. O meu problema é o pânico de ter que resolver um problema sozinha. Porque eu não faço isso. Eu não resolvo problemas ou sequer tomo decisões sem antes pegar um celular e ligar para a minha mãe (com voz de choro, diga-se de passagem). Eu sequer pego um ônibus novo sem antes ligar para minha amiga Amanda (a enciclopédia rodoviária do Rio de Janeiro) e conferir se ele vai me deixar em casa, e não na Maré. Em geral, a parte consciente do meu ser SABE que aquele ônibus é o certo. O lado racional do meu cérebro sabe que não é exatamente indispensável consultar a minha mãe sobre que pão eu compro - o sírio ou o árabe. Na verdade, eu tenho um lado racional muito interessante no meu cérebro, capaz de decisões difíceis e raciocínios complexos. E ele seria, de fato, muito útil, se ao menos eu fosse capaz de utilizá-lo de vez em quando. Mas, logo ao lado dele, há um lado histérico e desesperado que enfia a porrada no vizinho toda vez que ele tenta se manifestar.

E essa minha neurose absoluta parece ser reiterada pelo fato de que, toda vez que eu fico sem bateria, acabo, coincidentemente (ou através da ação de alguma força cósmica determinada a foder com a minha sanidade), esquecendo as chaves de casa também. Às vezes, no entanto, o celular é realmente útil, como quando meu pneu furou na ECO e eu, em vez de cogitar cuidar do problema, tratei de ligar (hiperventilando e engolindo o choro) para o Bernardo, pedindo (pedindo, suplicando, diferença pequena) ajuda. Detalhe que ele estava na sala do lado, mas eu estava petrificada demais para pensar em sair do lugar. Sim, isso tudo por um pneu. Desnecessário comentar que, quando Bernardo precisou voltar para aula e me deixou para cuidar da situação, desenvolvi palpitações e automaticamente liguei para minha mãe, já aos prantos, gritando que detestava ter um carro e que nunca seria capaz de cuidar de nenhuma propriedade minha. O que, depois dessa breve exposição, vocês já devem ter concluído se tratar da mais pura verdade. Mas enfim.

Após horas gritando pelo telefone que o maldito carro não tinha um macaco, e que eu iria ficar velha e morrer naquele estacionamento (que nem o moleque gordo que passa a vida num ônibus no "Laboratório de Dexter"), descobri que o macaco ficava embaixo do estepe. Que, aliás, eu também não sabia que existia. Após a descoberta das duas peças, decidi que o melhor a fazer seria ficar lá e aprender a trocar um pneu com a força do pensamento, para não ter que pedir auxílio a um desconhecido -outra fobia absoluta: me perco, mas não peço informação. CLaro que, 5 minutos depois, cheguei à conclusão de que isso não iria acontecer tão cedo e já estava prester a iniciar outro acesso de choro quando um caminhão de lixo para ao meu lado e seu motorista, obviamente sensibilizado pela pobre menina com um óbvio problema mental, decidiu descer e trocar o maldito pneu. Apenas para me avisar que não estava furado em primeiro lugar, apenas vazio - possibilidade que o porteiro que me avisou do pneu não cogitou, pois quem iria imaginar que a pessoa seria relapsa o suficiente para não saber que pneus devem ser calibrados de vez em quando?

E isso já demonstra outro grande problema na minha vida: carro. Dirigir, na realidade. Eu simplesmente desisti de dirigir. Na realidade, não toco num volante há mais ou menos uns 3 meses - sob a desculpa de que minha permissão venceu e eu não tive "tempo" de ir no DETRAN pegar a permanente. O que é uma piada se considerarmos que tempo é, justamente, o que eu mais tenho na minha vida. Isso graças ao fato de que sou a única estudante de 5o período sem estágio, bolsa, projetos profissionais ou perspectivas minimamente animadoras de vida. Mas voltando: carro. Eu odeio dirigir. Na realidade, odiar não define muito bem: eu morro de medo de dirigir. SAir da minha rua, virar à esquerda, conseguir vagas, lidar com flanelinhas: todos esses simples pensamentos já me causam um misto de medo e ódio que não dá nem para colocar em palavras. Aliás, estranho é quem GOSTA de dirigir nessa maldita cidade. Como se o pensamento de estar numa engenhoca metálica cujo funcionamento vai muito além de nossa compreensão mundana não fosse aterrorizante o suficiente, ainda temos o agravante de estarmos rodeados de completos imbecis acéfalos controlando engenhocas ainda maiores e mais potentes à nossa volta, além de guardas loucos para ganharem um "extra" e pedestres abusados com complexo de Keith Richards, convencidos de que são indestrutíveis e viverão para sempre. Como NÃO tremer com um pensamento sórdido desse?

Como a doida da minha mãe, que ainda tem a coragem de virar e falar "poxa, eu amo dirigir", quando eu tenho automáticos flashbacks dela chegando em casa voada, suando, transtornada, xingando até a última geração e desenvolvendo pedras nos rins por segurar o xixi durante as 3 horas em que ficava presa diariamente em sua caixinha metálica em Copacana. Onde, aliás, ela também foi assaltada algumas vezes! Pelo menos ela nunca foi falsa a ponto de falar que "amava seu trabalho", quando eu vejo pessoas com umas 5 pontes de safena, olheiras, problema crônico de falta de sexo e lesões de esforço repetitivo (de digitar, seus pervertidos), falando sobre como "amam seus empregos" e "se realizam em seu trabalho". Que piada.

Pensando bem, mais loucas parecerem ser essas pessoas que gostam de falar ao telefone, trocar pneus, dirigir, trabalhar e todas essas coisas absolutamente insanas da vida cotidiana.

Oh, céus. Estou cercada de malucos.

7 comentários:

Pedro Eler disse...

Fernanda, você precisa começar a vencer essas barreiras psicóticas antes de irmos morar em Nova York hein...

E eu adoro dirigir, e todo o stress do trânsido faz ficar ainda melhor pra mim, sei lá, acho que libera adrenalina, eu só sei que acho muito bom e quanto mais ferrado o trânsito melhor. Mas claro, isso porque eu nunca tenho que chegar em tal lugar em tal hora então não tenho o menor problema de perder alguns minutos a mais no trânsito.

E acho que você pode mudar de idéia no dia que comprar um Land Rover ou um Pajero... aí qualquer um gosta de dirigir.

Eu também não gosto nem um pouco de telefone, mas cara, o truque é aceitar que faz parte da sua personalidade. Ao invés de ficar preocupada com isso admite logo "não sei falar ao telefone" e pronto, aí você pode agir como uma completa imbecil em ligações que não tem problema nenhum. Eu sempre ajo como um imbecil e não dou a mínima...

E pra saber viver tem que se achar um caminho. Eu achei o meu... cada um tem que procurar o seu. Não é fácil, mas é necessário.

pacheco disse...

Adorei a conclusão final, sensacional!

Eu não sei viver também não, se me largam no mundo sem celular e sem copiloto eu fico parado e não faço nada...

criaturita exotica disse...

po, não liga não fernanda, tem gente mais sem noção nenhuma de usar o telefone que você...eu por exemplo termino uma conversa com o cara do banco do brasil com "beijos, tchau" e só depois que percebo que eu nem conheço o cara, e muito provavelmente ele deve estar rindo de mim e falando com todos os outros gerentes o quanto a menina que ele falou é imbecil.

é isso...sinta-se feliz! acho uqe no final das contas ninguém sabe viver. e quem diz que sabe está mentindo.

Antônio disse...

Cara, assista um filme: "Jonestown, vida e morte no templo do povo."

aí depois a gente combina um suicidio coletivo lá pelos 55 anos caso nada tenha dado certo nas nossas vidas pós-modernas

Cesar disse...

Ligar para o Bernardo e pedir socorro em tempos de crise é clássico!

Eu cheguei ao ponto de não mais dar a mínima pros outros. Sério! Parece clichê mas simplesmente não consigo mais me importar o suficiente para ficar me consumindo sobre o que os outros estão pensando acerca das minhas neuroses explicitamente exteriorisadas. Não dá pra agradar gregos e troianos. Acho até que deveria me importar um pouco mais... Mentira! Nem acho! Fuck'em all! Eu sou um merdinha estranho mesmo e é isso aí. Fazer o que... Sempre existirá a metade que te achará super foda e sempre existirá a metade que vai achar você uma merda total.

Aliás, concordo com o Pacheco que conclusão do texto foi genial!

E acho que são as suas estranhezas e neuroses que te fazem ser descolada, Fernanda. Pensa bem, se você fosse "normal" existe uma possibilidade de que você seria laranja, usaria rasteirinhas e escutaria Loser Manos e Mallu Magalhães.

pacheco disse...

Os seus amigos te acham muito foda, é isso que importa.

Aninha disse...

eh por isso que a gente te ama =)
hoje veio um povo aqui em casa pedir pra usar a minha varanda pra subir uma mesa que nao cabia no elevador. eu virei e falei que meu pai nao deixava ninguem estranho entrar em casa quando eu estivesse sozinha (bullshit, ele caga)
you're not alone in the world! :)