domingo, 5 de julho de 2009

Paçoquinha ou Starbucks: eis a questão.

Surto de hiperatividade pós café de 10 reais. Tenho que aproveitar. Nós somos um povo muito ridículo, mesmo, devo dizer... O mundo inteiro exporta café da gente e ainda assim a fila do Starbucks estava simplesmente dando a volta em Botafogo. Fiquei tão envergonhada de estar ali que quase fui embora.

Quase.

Mas aí lembrei o quanto amo aquele café artificial, de baixa qualidade e ridiculamente superfaturado e decidi que dava pra esperar mais um pouquinho. Valeu cada um dos milhões de centavos que gastei no cartão da minha mãe. Aliás, acho que só a idéia de usar cartão de crédito para pagar por UM café já é sintomático. Mas enfim... Eu acho que o sucesso do starbucks se dá ao fato de que usar uns 25 termos diferentes para descrever seu próprio café apela para o psicológico da pessoa. Ela sente que tem um poder de decisão tão tenso, mas tão tenso, que é capaz de dominar cada mínima etapa da produção de sua bebida de escolha. Dá uma idéia de "Eu sou o Rei do meu café". Da mesma maneira que povo fica em polvorosa com a idéia de escolher a cobertura do próprio iogurte ou os conteúdos da própria salada. Tipo, é SUA comida, é apenas natural que você escolha o que vem dentro, certo? Mas, ainda assim, é uma falsa idependência alimentícia muito tentadora.

Sem contar que aquela alma incompreendida, que mora na Glória mas se sente totalmente New Yorker por dentro porque ama usar cachecol e galochas, sente que finalmente encontrou seu lar no starbucks. É até engraçado ver aquela gordinha pegando seu frapuccino java chip tall com chantily e seu muffin de blueberry - detalhe que eu, assim como 90% dos brasileiros, nem sei qual é o formato de um blueberry - e se sentando naquele sofazinho escroto, no meio do shopping, e abrindo sua cópia de "A menina que roubava livros", ou qualquer coisa do Augusto Cury. Tipo "estou na quinta avenida e sou muito culta e cosmopolita". Só que no Botafogo Praia Shopping - só o shopping mais pre-adolescência pobreza do Rio de Janeiro -, com livros de auto-ajuda. Mas enfim.

Eu não sou ninguém pra falar, de qualquer modo... Peço o frapuccino mocha tall, na base light, sem chantilly. E com muito orgulho! Só que sem cachecol, porque eu ainda tenho limites.

O mais engraçado é a contradição. Por exemplo, festas juninas. Elas são basicamente o oposto de um starbucks da vida. Porque a pessoa não vai pra se sentir sofisticada e cosmopolita. Você vai pra uma festa junina pra se sentir livre pra ser POBRE. Festas juninas são ambientes que combinam música de pobre, roupas de pobre, decoração de pobre e, o mais importante, comida de pobre. Você usa vestidos bregas e multicoloridos, pinta sardas no rosto, pega aquela sua calça jeans mais horrorosa e esburacada e, no caso dos mais entusiastas, até cria falsos dentes podres para entrar no personagem! É basicamente um retrocesso total e absoluto, mas, sinceramente, eu nunca vi uma pessoa mais feliz e empolgada em ocasiões formais do que em uma festa junina. Isso vindo de uma pessoa que já frequentou várias ocasiões sociais. EM BRASÍLIA.

Ah, se eu ganhasse um real cada vez por todas as vezes em que vi uma das "desperate housewives made in Goiás" se perdendo no salsichão com farofa e indo até o chão depois de um quentão (ou cinco), eu teria o suficiente para comprar uns 3 Starbucks. E eu tô falando de dondocas SÉRIAS, do tipo escova progressiva de jambo-silvestre-das-florestas-ocultas-do-Jalapão, Ray Ban comprado pelo marido "empresário" (em Brasília, esse termo vem agregado de muitos valores ocultos) na última viagem para a França e Ecosport prateada para levar "Robertinho" e "Júlia" para a aula de natação na Body Tech - onde ela, obviamente, faz pilates e hatha yoga.

Mas enfim, voltando ao ponto incial... Toda aquela pobreza é tão... Libertadora. Você ganha um OK para perder toda a sua classe. Comprando 10 reais em fichinhas (fichinha oldschool, tipo de papel, sem tarja magnética ou chip), você simplesmente enche o traseiro de paçoquinha, bolo de aipim, cuscus doce, tapioca, espetinho e o que mais seu corpo conseguir comportar. E quem pode culpar a pobre dondoca do ecosport por se sentir muito mais realizada comendo aquele cuscus encharcado de leite condensando do que um daqueles malditos canapés de queijo brie com damasco? Que ela come, levantando o dedinho perfeitamente manicurado, enquanto conversa com as companheiras housewives sobre como "Jorginho está adorando as aulinhas de yoga para recém-nascidos". Nesse quesito, não tem o que negar: comida de pobre É O QUE HÁ NA VIDA. Eu jamais trocaria aquele feijão tropeiro com carne-seca e manteiga de garrafa por um "foie-gras" ou qualquer outra dessas paradas que envolvem bichinhos sendo enterrados na terra, boizinhos-filhote que nunca viram a luz do dia ou ovas de peixes especiais criados por freiras cegas e sem mãos. E atire a primeira pedra quem não perde a linha naquelas paçoquinhas em forma de rolha que vêm no potinho redondo! Ou aquela feijoada nojenta, com pé, orelha, olho e o cacete, que só sua vó sabe fazer!

Eu deveria concluir esse post dizendo que dinheiro não compra felicidade, fazendo uma metáfora entre a paçoca, o starbucks e como as coisas simples podem ser muito especiais. Essa seria uma boa moral da história.

Mas eu acho que dinheiro é sempre bom. E que, apesar de coisas simples serem legais, é maravilhoso poder ter as inúteis também. E eu amo meu café superfaturado e capitalista. E pago 17 reais pelo cheesecake do outback.

E, agora que penso sobre o assunto, temo o dia em que terei que depender do meu próprio dinheiro para sobreviver.

9 comentários:

pacheco disse...

"Você vai pra uma festa junina pra se sentir livre pra ser POBRE"

=D

Ótimo texto!

Pedro Eler disse...

hahahahahahahha

maravilhoso o texto fernanda!

concordo com tudo. Acho ridículo aquele povo se sentindo cool no starbucls mas segunda estávamos lá nos achando super cools, sendo que vc e a vivian até tem aquele look new yorker, mas eu não tenho mesmo, então eu era o mais ridículo de todos naquele starbucks hahahahahahaha

e eu gosto muito de festa junina, acho fantástico, as comidas são boas, as danças divertidas, a música brega mais hilária e o espírito de pobreza liberador é realmente fantástico.

Antônio disse...

HAHAHAHAHAHAHA, ai ai, meu Brasil brasileiro...
mas aí, 17 REAIS NUM CHEESECAKE DO OUTBACK??????????????? e o atendimento ainda é meio tosquinho, querendo-ser jovem, descontraído, mas cobrando 17 REAIS POR UMA CHEESECAKE... ai ai, vida...

Los Bife disse...

cheese cake é coisa fina, rapá

tom disse...

POPS, NAO SEI COMO, MAS VC CONSEGUIU FAZER UM DE SEUS MELHORES TEXTOS (E OLHA QUE NAO SAO POUCOS OS MELHORES ANTERIORES). RI DO COMEÇO AO FIM E VISUALIZEI A PARADA TODA! ESSA SEMANA JA COMI PAÇOCA CINCO VEZES! ADORO. DE CAFÉ EU NAO GOSTO, NAO PAGO 12 CONTOS NUM STARFUCKS NEM A PAU (MAS 17 NA CHESSECAKE DO OUTBACK COM CALDA DA CARAMELO, PAGO). MAS ROLA ISSO Q VC DESCREVE, ESSA SENSAÇÃO DE SE SENTIR NOVAIORQUINO POR ALGUNS SEGUNDOS. FUCK OFF, LET´S DANCE! SOU MAIS UM SARCHICHÃO COM FAROFA! :-)

tom disse...

AINDA TEM UMA COISA QUE ME IRRITA NESSE TAL DE STARSUCKS: SE VC FOR LA E PEDIR UM CAFE SIMPLES OU UM PROSAICO CAFÉ COM LEITE, NAO TEM. CAFE SIMPLES NAO EXISTE, PQ O CAFÉ DELES É FAKE. CAFÉ COM LEITE ELES NAO ENTENDEM, SÓ SE VC FIZER CARA DE BABACA, APERTAR O BIQUINHO E DIZER MOCCHA LATTE. VAI SE CATAR, VAGABUNDO, NUNCA QUEU VOU PEDIR TAL COISA EM TAL LUGAR, MOCCHA LATTE É O CARALHO, VACA NÃO LATE (RSRSRS)

Cesar disse...

HUAHAUHAUAHAUHAUAHAUAHUAHAUHAUAHUA

Eu ri.

O Tom que está certo!! Também não pagaria fortuna por café de plástico nem que a Angelina Jolie dissesse que iria chupar meu pau até gastar!

E o texto ficou genuinamente sensacional, Fernanda!

Giu disse...

1º- poxa, eu também nao gosto de café e isso fazia com que eu me sentisse muito excluída.. aí eu descobri que eu posso ir no starbucks e pagar 11 reais por um não-café =D é tipo um milkshake sem sorvete. Muito sem graça e superfaturado, mas vem no copinho legal que me faz sentir new yorker! =D

2º- eu paguei 18,50 reais por um cheesecake no Johnny Pepper domingo, então eu total te entendo.

3º- só discordo da parte do foie-gras, pq é bom pra caralho (Y)

André Mans disse...

eu já odeio o starbucks
muito caro por tão pouco